Tentados e provados

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Há pessoas que começaram bem na vida, mas não souberam como terminar. Iniciaram a vida sofrendo muitas provações, foram tentadas e testadas, mas nesse início virtuoso da carreira, em que se sentiram recheados de nobres e elevados ideais, não se deixaram corromper. Não fizeram alianças espúrias, não cederam ao dinheiro fácil, não se venderam pelo poder; não negociaram valores e sentiam-se dispostos a morrer por seus ideais; ou seja, viveram com dignidade, mesmo expostos a ambientes eivados de corrupção. Mas, algum tempo depois, seguidamente tentados, chegou um momento em que resolveram ceder, deixando a partir daí o rastro de um caminho tortuoso que jamais será esquecido.

Este é o resumo biográfico de não poucos agentes públicos e inúmeros entes destacados da iniciativa privada. A Operação Lava-Jato tem descortinado paulatinamente os rastros de malfeitos que, como cadáveres insepultos, deixaram ao longo do caminho.

Assim é a vida: as tentações e provações acometem a todos indistintamente. Alguns resistem e seguem; outros sucumbem e caem. Mas principalmente os líderes devem tomar cuidado com as respostas que dão às tentações e provações da vida, pois tudo o que fizerem repercutirá nas gerações seguintes.

Tentações e provações são inerentes à vida humana. Isso levou Roy Baumeister, professor de uma universidade americana, a elaborar uma pesquisa sobre o tema junto a seus alunos. Eles deveriam ficar em completo jejum durante certo período de tempo, e depois, deixados isolados com um prato de rabanetes e outro de biscoitos. Era permitido aos alunos comerem os rabanetes, mas terminantemente proibido provarem dos biscoitos.

Com grande esforço, todos os alunos conseguiram resistir à tentação de comerem os biscoitos. Como resultado desse teste, logo depois, os alunos não conseguiram desempenhar tarefas intelectuais; estavam psicologicamente exaustos. Concluiu-se que o autocontrole demanda caráter, decisão, mas dispende uma grande carga de energia. A mente precisa ser “recarregada” antes de poder ser usada novamente.

Algo que precisa ser entendido a respeito de tentação e provação é que estas são dois lados de uma mesma moeda. No grego, uma só palavra expressa ambos os conceitos. Mas há uma diferença fundamental entre ser tentado e ser provado. Alexander MacLaren esclareceu essa diferença num sermão intitulado “Fé testada e coroada”. Para ele, a tentação dá a ideia de se apelar para a pior parte de uma pessoa, com o desejo de que se submeta e faça o que é errado. A provação, por sua vez, significa um apelo à melhor parte de uma pessoa, com o desejo de que ela resista. Maclaren continua: “A tentação diz: Faça isso porque é agradável; não seja impedido pelo fato de ser errado. A provação diz: Faça isso porque é nobre e certo; não seja impedido pelo fato de ser doloroso”.

Assim, em geral, uma pessoa sofre tentação quando busca em si uma disposição de ânimo para praticar coisas erradas ou censuráveis. Alguém é provado quando enfrenta uma situação aflitiva ou penosa, que geralmente o atormenta, aflige e martiriza.

Podemos encontrar esses dois exemplos em grandes homens na história.

O rei Davi foi tentado quando viu Bete-Seba tomando banho num riacho. Sucumbiu. Dele saiu o pior: providenciou para que o marido dela fosse morto, buscou encobrir o próprio pecado. Quanto sofrimento adveio disso! Anos antes, quando jovem, foi provado ao ter de enfrentar o gigante Golias. O exército de Israel fora intimidado por quarenta dias, ninguém se habilitara à luta. Davi ousou confiar apenas no Senhor. Venceu! Ali nascera um destemido e valoroso guerreiro, que veio a ser rei de Israel.

O patriarca Abraão, no Egito, foi tentado a mentir, dizendo que sua bela esposa Sara era sua irmã, pois temia ser morto. Dele brotara o pior. E quantos problemas enfrentou por isso! Anos depois, enfrentou uma dura provação. Deus lhe pedira que oferecesse o seu filho Isaque em holocausto. Ele resolveu obedecer. Deus havia dito que a sua descendência através de Isaque seria numerosa. Ele cria que Deus poderia ressuscitar o seu filho de entre os mortos. Isso o habilitou a se tornar o “pai de todos os que creem”.

Vejamos o exemplo de Jesus. Quando Ele foi tentado por Satanás quarenta dias no deserto, mas de Seu interior nada poderia brotar a não ser o bem; e Ele resistiu e venceu. Com isso, se habilitou a nos ajudar, como está escrito: “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”.

No jardim do Getsêmani, Jesus foi provado. Ele estava para se oferecer como sacrifício para a nossa salvação, receber sobre si todos os pecados da humanidade, se tornar Ele próprio pecado; isso quebraria a comunhão eterna com o Pai e Ele teria que provar a morte. Em agonia, pediu ao Pai que fosse passado de si esse cálice; todavia, resolveu obedecer a vontade de Deus: “Faça-se a tua vontade”. O mundo nunca mais foi o mesmo depois dessa decisão.

O mais importante é que, tentado ou provado, haverá um momento crucial que demandará a tomada de uma decisão de proceder corretamente ou ceder, de praticar o bem ou fazer o mal, de erigir o caráter ou destruir a reputação. O escritor Mark Twain disse: “Os dois dias mais importantes na sua vida são: o dia em que você nasceu e o dia em que descobriu por que”. É essa segunda parte que faz você perseguir o ideal de começar bem e terminar melhor ainda.

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