O que é Confessionalidade?

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O que é confessionalidade?

Texto Básico: Atos 24.10 a 16

Leituras diária

D – Ec 3.9-14 – O ser humano e a eternidade
S – Jr 9.23-24 – O conhecimento de Deus
T – Jr 10.1-12 – Contraste entre o Senhor e os ídolos
Q – 1Cr 29.10-16 – Tudo provém de Deus
Q – 1Rs 8.33-40 – A busca da restauração
S – Rm 10. 9-13 – Confissão para a salvação
S – 1Co 9.13-15 – A confissão e ação

Introdução

O que é confissão? O que é ser confessional? O que é confessionalidade? As duas primeiras palavras são encontradas em nossos dicionários de língua portuguesa e também em dicionários bíblicos. Entretanto, confessionalidade é um neologismo, ou seja, uma palavra recente para a qual não existe ainda uma definição gramatical rigorosa e não é encontrada nos dicionários. A palavra confessionalidade tem sido frequentemente utilizada no contexto acadêmico e aparece quase sempre associada a um adjetivo como, por exemplo, “confessionalidade presbiteriana”, “confessionalidade luterana”, etc.

Sendo assim, porque gastar tempo refletindo sobre este tema? Qual a relevância da compreensão sobre o significado dele? Será que a confessionalidade é algo realmente digno de ocupar o precioso tempo de estudo semanal em uma escola dominical? Ao final da lição, você poderá responder, por si mesmo, essas questões. Vamos ao estudo.

I. Definição de termos

a. Confessionalidade e seu contrário

Para entender o termo confessionalidade, será necessário entender o seu oposto – a laicidade, laicismo ou laico. Essas palavras, que também não são comuns em nosso vocabulário cotidiano, tem o sentido de autonomia em relação às confissões religiosas. O movimento pelo laicismo surgiu no século 16, no período do renascimento cultural. Tratava-se de uma busca pela ausência do controle religioso da política, das artes, das ciências e da educação. A ideia fundamental era que os cientistas, educadores, artistas e políticos deveriam trabalhar sem favorecimento ou perseguição decorrentes de ideias religiosas. A religião deveria ser reservada para ao espaço da vida privada e não poderia interferir nos negócios públicos. A existência dos Estados laicos, nos quais existe a liberdade de expressão da diversidade religiosa é uma conquista do movimento laico. O oposto do Estado laico é o Estado confessional, ou seja, o Estado ou país que impõem uma crença religiosa aos cidadãos. Grande parte dos países muçulmanos são exemplos dessa confessionalidade nacional.

A laicidade é entendida como secularismo. No âmbito político, a palavra adquire sentido de neutralidade, ou de conferir tratamento igualitário a todas as religiões e também ao ateísmo. O movimento laico prima pelo não envolvimento do religioso nos assuntos de governo, da mesma maneira que requer o não envolvimento do governo nos assuntos religiosos.

Embora o movimento laico seja importante para evitar favoritismos ou perseguições por razões religiosas, o próprio movimento descambou em um radicalismo confessional, pois acabou por negar a validade da religião e inclusive, tornou-se perseguidor e destruidor dos valores religiosos ou confessionais. Em nome da laicidade, passou-se a construir uma nova cosmovisão fundamentada na ideia de autonomia do ser humano. Francis Schaeffer afirma que muitos dos grandes problemas sociais do século 20 estão ligados à destruição da família, à violência nas escolas públicas, à pornografia, permissividade e outros problemas morais resultantes da ausência de valores absolutos e o apego a esta visão de mundo, segundo a qual “a realidade final é matéria ou energia impessoal posta na forma presente pelo acaso impessoal” (A Igreja no século 21, pág. 166, Cultura Cristã).

O que Schaeffer denuncia é a transformação do laico em confessional. Segundo ele, a tentativa de libertar as diversas esferas públicas do poder religioso criou uma nova religião – a religião humanista – e esta se tornou tão ou mais opressora do que as formas anteriores de opressão religiosa. De acordo com Schaeffer, não há possibilidade de existência da atitude laica, pois ou se estará confessando que a fé religiosa é parte da vida, das decisões e das atitudes diante de todas as situações da vida, ou se estará confessando que a vida é uma série de fragmentações, uma colcha de retalhos, na qual a religião ocupa apenas uma posição periférica.

b. Confissão

A palavra confissão está relacionada, no grego, a um grupo de palavras (homologia) utilizadas com finalidade jurídica e comercial. Entre seus significados, destacam-se: concordar, reconhecer, admitir, declarar e prometer. O termo era primeiramente utilizado em um contexto de julgamento, no qual um homem concorda com a declaração de outro, concede ao outro o reconhecimento de que esse outro está correto, está falando a verdade e tem, portanto, o direito de atribuir a punição merecida. Confessar significava concordar que a penalidade seria justamente atribuída e se comprometer a cumpri-la. Confessar implicava assumir consequências.

Ao reconhecer uma dívida e prometer que o pagamento será feito, a palavra possuía um sentido jurídico e comercial. Admitir que é devedor não teria sentido se não houvesse disposição de assumir as consequências desse reconhecimento e efetuar o devido pagamento.

O emprego religioso da palavra confissão é posterior à sua utilização no contexto dos tribunais. Neste caso, o homem, por meio de juramento, entra em um relacionamento de aliança com a divindade. Assim, o termo confissão é transferido de uma confissão solene de mau procedimento diante de um tribunal, para a confissão de pecado diante da divindade. Na Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, o conceito de confissão é utilizado cerca de 120 vezes, geralmente como tradução de palavras hebraicas que significam louvar e confessar. Às vezes se emprega com termos que devem ser entendidos conjuntamente, ou seja: dar louvor, reconhecer com louvor, confessar com louvor, adorar com cânticos (2Sm 22.50; Sl 7.17, Sl 18.49-50),   cantar louvores, agradecer e celebrar (1Cr 16.4; 29.13; 31.2; Sl 106.47).

c. Confissão e confessionalidade

Podemos agora relacionar a palavra confessionalidade com o que foi dito sobre confissão. Confessionalidade é um conjunto de crenças, princípios, símbolos e práticas que se explicitam na vida de uma pessoa ou instituição. É a atitude de assumir e confessar como valioso um conjunto de valores, princípios de conduta e também respostas para os questionamentos da vida. Consideremos que “confissão” seja a aceitação de algo como verdadeiro e valoroso, bem como a proclamação ou declaração de que esse “algo” é significativo e digno de ser aplicado à nossa experiência de vida. Sendo assim, a confessionalidade terá então o sentido de um estilo de vida, fundamentado nos valores escolhidos para direcionar a prática pessoal, familiar, profissional, social e espiritual.

A confessionalidade se aplica à vida do indivíduo da mesma forma como pode ser aplicada à uma instituição educacional, religiosa, filantrópica, esportiva, etc.

II. Ser humano é ser confessional

Assumimos, neste contexto, que a palavra confessionalidade é um substantivo abstrato, assim como bondade, beleza, vaidade, vivacidade, etc. Substantivo abstrato é aquele que nomeia algo que depende de outro algo para se manifestar ou existir. Por exemplo, ninguém pode ver a beleza como tal, pois somente podemos contemplá-la em algo que é belo. Por isso, beleza é um substantivo abstrato. Do mesmo modo, a confessionalidade não pode ser vista de forma desvinculada de um ser confessional.

Podemos fazer uma aproximação ao termo, enfatizando que confessionalidade designa a tendência do ser humano em sua busca de sentido e de explicação para sua própria existência, assim como para a existência do universo e a origem e sentido da vida. O ser humano é um ser confessional. Isto significa que todo ser humano confessa (acredita e afirma) algo sobre si mesmo e sobre o universo.

A confessionalidade é, portanto, a impossibilidade da neutralidade. O ser humano não consegue deixar de formular questões ou aceitar, impassivelmente, respostas que são impostas a ele. A confessionalidade está ligada à própria racionalidade humana. Por se tratar de um ser racional, que precisa justificar sua própria existência, é possível admitir que todo ser humano possui um conjunto de crenças que constituem sua confessionalidade. A confessionalidade está ligada à identidade. Aquilo que confesso como sendo verdadeiro para mim, define quem eu sou, com quem me relaciono e com quem eu rompo.

III. Toda confessionalidade tem consequências

Francis Schaeffer afirma que os humanistas compreenderam muito bem a impossibilidade da neutralidade. Eles reconheceram, antes que os cristãos modernos, que a forma como interpretamos a realidade produz resultados na realidade. Não é possível viver como se Deus existisse e se importasse com tudo o que você faz e, ao mesmo tempo, viver como se ele se importasse apenas com a parte religiosa da sua vida. A visão laica da realidade se transformou em uma confissão radical sobre a não existência de Deus, sobre a centralidade e supremacia da razão humana. Dessa forma, segundo Schaeffer, o homem se perdeu. A confessionalidade materialista não dá conta de explicar o ser humano, pois o reduz a muito menos do que ele é. Ao afirmar que a realidade final é apenas “matéria-e-energia-ao-acaso” esta confissão materialista não encontra a mínima sustentação necessária para desenvolver um conceito de dignidade humana, de sociedade justa, de legalidade ou justiça. Tudo se relativiza. Em lugar de reconhecer a dignidade do ser humano, essa visão de mundo o vê apenas como um animal intrinsecamente competitivo sem nenhum princípio ou motivação que vá além da seleção natural.

Em termos educacionais, por exemplo, a laicidade, ou não confessionalidade, tem sido o clamor dos países que se reconhecem como cristãos. Embora a liberdade de expressão religiosa seja a indispensável base da liberdade e justiça social, na maioria dos países cristãos europeus e nos Estados Unidos da América, a autonomia da educação em relação à religião resultou em proibição do ensino religioso nas escolas e, por fim, a expulsão de Deus dos textos e das práticas escolares.

O ensino a respeito da evolução leva crianças, adolescentes e jovens a considerarem a si mesmos e aos demais seres humanos como destituídos de qualquer dignidade intrínseca à condição humana. Afinal, que dignidade pode haver em seres que são vistos apenas como semelhantes a brutos irracionais?

IV. A confessionalidade cristocêntrica

A confissão cristã deve ter Cristo como centro, como Senhor e Salvador. Colossenses 1.13-20 é uma maravilhosa confissão de fé no Cristo vivo, que estava com o Pai no princípio da Criação, que sustenta todas as coisas, e que se deu por todos nós, na cruz do calvário. O reconhecimento dessas verdades espirituais não pode ser algo apenas intelectual. É obra do Espírito Santo de Deus. É ele quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. E é também ele quem nos faz lembrar de tudo o que o Senhor Jesus nos ensinou por meio de sua Palavra registrada nos Evangelhos e também por meio de seus atos de amor e santidade. Confessar que Jesus Cristo é tudo o que o texto de Colossenses nos ensina que ele é, exige mudança de vida, exige transformação da mente, dos sentimentos e do comportamento em relação a Deus, ao próximo e em relação a nós mesmos e aos nossos dons e responsabilidade perante Deus e os homens. A confessionalidade cristã exige prática cristã, ou seja, exige prática que imite a Cristo.

Os cristãos primitivos tinham o adequado conhecimento do que era a confissão cristã. Confessar que Jesus Cristo é Senhor implicava negar que César é senhor. Implicava disposição para enfrentar os riscos da confissão. Implicava também aceitar as responsabilidades decorrentes dessa confissão. Os cristãos entenderam que deveriam ser servos uns dos outros, que não deveriam temer a morte, pois haviam recebido a promessa da vida eterna em Cristo Jesus. Paulo confessou que preferia a morte, para estar com Cristo. Os resultados da vida prática confirmando a fé é um bom exemplo do que era entendido como confissão. Eles diziam que Jesus Cristo é Senhor. Então, viviam como servos desse Senhor e não como donos de sua própria vida, de seu próprio tempo, de seu próprio dinheiro. Eles sabiam que prestariam contas a este Senhor. Eles confessavam ser uma família, assumiam que eram irmãos em Cristo. Então, viviam em comunidades, repartindo entre si o pão, o abrigo, o ensino, o sofrimento e as alegrias. Eles se regozijavam na comunhão e no partir do pão. Eles oravam juntos. Eles serviam juntos.

Conclusão

A confessionalidade cristã, conforme expressa na Bíblia, exige assumir publicamente a crença de que Deus é criador do universo, que o ser humano foi criado por Deus para o louvor da sua glória, mas que pecou e é réu de morte, digno do inferno, tendo necessidade de redenção que somente pode ser propiciada pela graça e misericórdia reveladas no sacrifício de Jesus Cristo em nosso lugar.

Este conjunto de crenças é, na verdade, uma só. Dela deve derivar uma postura diante da vida, que tem consequências não apenas para a salvação eterna, mas para a vida diária, para os relacionamentos, para a escolha profissional e conjugal, etc. Se cremos que nossa vida foi planejada por Deus para resultar em glória ao seu próprio nome, não podemos vivê-la como se fossemos donos de nós mesmos ou como se fôssemos animais racionais em competição com outros, sem um propósito mais elevado para nossa existência.

Aplicação

Que tal reavaliar sua confessionalidade e sua prática diária? Como você pode se descrever como alguém que é confessional? Que Deus o dirija em um novo posicionamento em todos os contextos nos quais ele mesmo tem colocado você, para que você seja sal da Terra e luz do mundo. Amém.

>> Estudo Bíblico publicado na revista Nossa Fé do 1º trimestre de 2013 com o tema O que é isso? – Parte 2 – Estudos de temas relevantes e contemporâneos, pela Cultura Cristã.

>> Autora do Estudo: Inez Augusto Borges



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