O objetivo da vida cristã – Mateus 6.33

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Leitura diária
D – Lc 15.8-10 – Procurando a dracma
S – Rm 3.9-18 – Não há quem busque
T – At 1.6-11 – Testemunhando do reino
Q – Mc 10.35-45 – Jesus veio buscar
Q – Mq 6.6-8 – Justiça, misericórdia e humildade
S – Lc 6.27-31 – A regra de ouro
S – Tg 1.19-27 – Os órfãos e as viúvas

Introdução

Esta é a definição popular de uma pessoa fanática: “Um fanático é alguém que, tendo perdido a visão de seu objetivo, redobra seus esforços para alcançá-lo”. O fanático corre em círculos, indo para lugar nenhum. Para que um cristão progrida na santificação e no aprendizado de como agradar a Deus, ele deve ter uma ideia clara de qual é seu objetivo. Embora a Bíblia torne claro esse objetivo, ele pode ser facilmente esquecido.

Nosso texto básico fala de uma busca. Diz que devemos buscar. Buscar é algo que requer esforço. Lembre-se da mulher que perdeu a dracma e procurou pela casa toda até encontrá-la (Lc 15.8-10). Busca requer trabalho. Devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça. Observe que Jesus disse que devemos buscar essas coisas em primeiro lugar. Essa deve ser nossa prioridade. Buscar o reino e a justiça. Essas são as prioridades da vida cristã. Mas o que significa isso?

I. A busca do reino

No mundo cristão, de modo geral, há muita confusão sobre a busca espiritual. Com certa frequência, ouvimos comentários como este: “Meu amigo não é cristão, mas está buscando”. O que o não cristão está buscando? Bem, sabemos de uma coisa que ele não está buscando. Não está buscando a Deus. Paulo afirma: “Não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Rm 3.11). Segundo a Escritura, o não cristão nunca busca a Deus. Lembre-se de como Adão fugiu da presença do Criador depois de pecar, e de como Deus o buscou, chamando-o pelo jardim e demonstrando misericórdia e graça, mesmo depois do pecado. Sempre é Deus quem vem à nossa procura. Jesus falou sobre isso. Ele disse que veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10). Repare que é Deus quem toma a iniciativa de buscar. Isso é o que chamamos de graça. Em seu estado caído, o ser humano pode procurar (e procura) respostas para os problemas da vida, mas não busca a Deus.

Por que, então, nos parece que o incrédulo está buscando a Deus? Na verdade, eles estão buscando a felicidade, a paz mental, o alívio da culpa, uma vida significativa e muitas outras coisas que sabemos que só Deus pode dar a eles, mas eles não estão buscando a Deus. Estão buscando os benefícios que só Deus pode dar.

É preciso ressaltar isso por uma razão: buscar a Deus é um empreendimento cristão. Começamos a buscar a Deus na conversão. Embora possamos proclamar ao mundo que fomos encontrados por ele, ironicamente ainda o estamos buscando. Buscar a Deus é uma atividade que dura a vida inteira.

A última pergunta que os discípulos fizeram a Jesus foi sobre o reino. Alguns momentos antes de Jesus ascender ao céu, eles perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (At 1.8). Depois de dar uma branda repreensão, Jesus deu uma ordem a eles: “Sereis minhas testemunhas”. Somos chamados a buscar o reino e a dar testemunho do reino. Devemos buscar o reino e mostrar ao mundo como ele é.

Ao ensinar aos discípulos a oração do Pai Nosso, Jesus faz uma associação entre o reino de Deus e a vontade de Deus. O reino de Deus é senhorio de Deus tanto na terra como no céu (Mt 6.10). Portanto, buscar o reino é fazer a vontade de Deus aqui e agora. Damos testemunho do reino de Deus ao servirmos a Deus, que é o Rei. Isso é o que agrada a Deus. Há uma razão pela qual na oração do Pai Nosso Jesus liga o reino de Deus ao cumprimento da vontade de Deus. “Venha o teu reino e faça-se a tua vontade” formam uma unidade. São dois lados da mesma moeda. O reino de Deus vem quando a vontade de Deus é feita.

A conclusão a que chegamos é esta: o objetivo supremo da vida cristã é a obediência ao Rei.

II. A busca da justiça

A busca do reino está ligada à busca pela justiça de Deus. Jesus nos manda buscar o reino e a justiça. Essa justiça é o tipo de justiça manifestada pelo próprio Jesus. A vida de Jesus foi um fulgor de justiça. Ele era o Cordeiro sem mácula, o Filho em quem o Pai se comprazia. A Escritura diz que ele era consumido pelo zelo pela casa do Pai (Jo 2.17). Sua comida e sua bebida era fazer a vontade de seu Pai (Jo 4.34). Jesus era o Deus encarnado, mas também era o homem perfeito, isto é, o homem perfeitamente justo e santo. É claro que não podemos imitar sua divindade, mas podemos e devemos imitar sua sincera dedicação à obediência a Deus, seu compromisso em agradar ao Senhor.

Logo que uma pessoa se converte, os cristãos apresentam a ela as prioridades da comunidade cristã. Espera-se que ela tenha um momento devocional diário, um tempo reservado à leitura da Bíblia e à oração. Também se espera que ela frequente a igreja. Espera-se, também, que ela tenha um tipo de piedade evidenciado por não maldizer, não se embriagar, não fumar e coisas semelhantes. O novo convertido logo assume um novo tipo de linguagem. Por exemplo, ele não “conta” mais nada a ninguém, ele “compartilha”; as coisas boas que acontecem a ele passam a ser chamadas de bênçãos. Isso significa que ele assimilou um tipo de piedade ou, pelo menos, um tipo de linguagem e de comportamento característico da comunidade à qual passou a pertencer.

No entanto, o conceito bíblico de justiça vai muito além de devoções diárias e jargões cristãos. Todos nós sabemos que é perfeitamente possível uma pessoa adotar práticas cristãs, assimilar uma linguagem cristã e, mesmo assim, não ser um cristão autêntico. O que caracteriza verdadeiramente um cristão é sua obediência a Cristo. O próprio Jesus ensinou: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando” (Jo 15.14). Deus quer que o cristão cresça na fé e na obediência. O erro que muitos cristãos cometem é este: confundir espiritualidade (piedade) com justiça. Qual é o propósito da espiritualidade? Qual é a utilidade da piedade? É nos fazer chegar à justiça. Quando confundimos espiritualidade e justiça, estamos confundindo os fins com os meios. Isso faz com que a espiritualidade ou a piedade seja vista como um fim em si mesmo. Ficamos tão preocupados com as formas externas de piedade que acabamos nos esquecendo da justiça. O grande erro dos fariseus foi justamente esse. Eles davam tanta atenção e tanto valor à prática da piedade que acabavam se esquecendo da justiça. Por exemplo, a guarda do sábado era um mandamento de Deus. Eles tinham de guardá-lo. No entanto, eles davam tanto valor ao cumprimento desse mandamento que quando Jesus curou um paralítico no sábado eles implicaram com o homem que tinha sido curado, porque estava carregando seu leito em dia de sábado, e implicaram com Jesus por ter curado o homem no sábado (Jo 5.1-18). Você consegue perceber que houve uma completa inversão de valores aqui? A piedade devia conduzir à justiça. Contudo, vista como um fim em si mesmo, ela impediu que os fariseus vissem a obra de Cristo como uma manifestação de graça e, assim, afastou-os da justiça.

A disciplina espiritual é essencial para se obter justiça. O estudo bíblico, a oração, a frequência à igreja e o evangelismo são necessários para o crescimento cristão, mas não podem ser o objetivo final. Não posso obter a justiça sem a piedade, mas posso ser piedoso, pelo menos superficialmente, sem obter a justiça.

III. O resumo da justiça

Há vezes em que a Bíblia fornece um resumo simples da justiça verdadeira, mostrando, de maneira clara, qual é o comportamento que Deus espera de nós. Há ocasiões em que Deus resume a vasta soma de mandamentos em alguns que captam a essência da verdadeira justiça. Vejamos alguns casos.

a.O resumo de Miqueias

No livro do profeta Miqueias lemos esta definição resumida da vida santa: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e o que é que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8). Justiça, misericórdia e humildade. Essa tríade não é fácil de ser obtida. Deus quer que eu cuide das questões importantes da justiça e da misericórdia. Ele se alegra com o companheirismo humilde dos santos. O apóstolo Pedro ensina: “No trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça” (1Pe 5.5).

Quando Miqueias falou em “misericórdia”, ele usou a palavra hebraica para “amor leal”. Esse é o tipo de amor que Deus tem por seus filhos. É um amor constante, que perdura. É o tipo de amor que permanece. Lembre-se da atitude do pai do filho pródigo. Seu filho tinha lhe causado profunda dor ao pedir sua parte na herança e partir para viver dissolutamente em um país distante. Além disso, o filho pródigo também provocou em seu pai uma forte frustração, por ter saído de casa com riqueza e voltado sujo, maltrapilho, faminto e pedindo para ser tratado como um empregado. No entanto, apesar de tudo isso, o amor do pai foi constante. Esse filho era amado. O amor de Deus também é assim, mas em um grau infinito. Embora Deus não aprove tudo o que seus filhos fazem, ele está ao lado deles. Mesmo quando lhes disciplina está demonstrando seu amor por eles. Manter o amor é imitar o modo como Deus nos ama, mesmo quando falhamos.

b. O resumo de Jesus

Jesus falou da vida cristã no resumo mais simples de todos: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Lc 6.31). A isso chamamos regra de ouro. Qualquer criança pode recitá-la, mas torná-la parte ativa da vida diária não é uma tarefa fácil.

Odeio críticas mesquinhas e não tenho prazer na companhia de críticos mesquinhos. Tenho dificuldade em gostar da companhia de pessoas que julgam o tempo todo. Não posso controlar o modo como essas pessoas se relacionam comigo, mas posso aprender com elas. De cada uma que me fere, posso aprender quais coisas são dolorosas. É possível que o que me fere seja o mesmo tipo de comportamento que fere outras pessoas. Portanto, posso aprender com elas o que não devo fazer.

Geralmente nossa reação à crítica destrutiva é retribuir com a mesma atitude, em vez de reagir com bondade. É nesse ponto que a regra de ouro toca a vida. Fazer aos outros o que queremos que nos façam é simplesmente uma questão de bondade. Isso, porém, é mais do que uma simples questão de cortesia. É fazer o que é certo, o que agrada a Deus.

Justiça significa vida correta. Significa tratar as pessoas da maneira correta, viver com integridade. Uma pessoa justa é aquela em quem podemos confiar. Sua integridade é consistente. Ela não está à venda. Uma pessoa justa é moral sem ser moralista. É piedosa sem ser legalista. Ela quer tratar as pessoas da maneira correta porque tem o grande desejo de agradar ao Deus de amor.

c. O resumo de Tiago

O autor da carta de Tiago provavelmente era irmão de sangue de Jesus. Seu resumo da verdadeira justiça pode ser chocante para alguns cristãos: “A religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1.27).

A verdadeira religião é visitar os órfãos e as viúvas. Por que Tiago diz isso? Porque ele descobriu que a verdadeira justiça é orientada para as pessoas. No mundo antigo, o órfão e a viúva eram desamparados na sociedade. Sofriam pressões financeiras, eram legalmente fracos e, acima de tudo, sofriam a pressão emocional da dor da solidão. Uma rápida consulta a uma concordância bíblica é suficiente para mostrar o quanto Deus se preocupava com essas pessoas. A Escritura é repleta de mandamentos para que Israel (no Antigo Testamento) e a Igreja (no Novo Testamento) cuidem do órfão e da viúva.

Atualmente, temos programas do Governo para ajudar financeiramente os órfãos e as viúvas. Porém, o estado de viuvez e orfandade ainda é desagradável e a carência financeira e emocional, especialmente dos órfãos, costuma ser imensa. As instituições sociais podem mudar, mas as exigências para mostrar compaixão para com aqueles em necessidade são as mesmas. De acordo com o ensino de Tiago, a pessoa que se dedica a atos de piedade (por exemplo, ir à igreja e entregar o dízimo), mas não se preocupa em demonstrar ao necessitado, de maneira prática, o amor de Jesus não tem uma religião verdadeira. João ensina a mesma coisa: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1Jo 3.17-18). Em outras palavras, a piedade sem compaixão é uma mentira. Somos chamados para demonstrar o amor de Jesus.

Conclusão

Precisamos de regras para ser justos, mas essas regras têm de ser justas. Precisam ser as regras de Deus. Na palavra do Pai, encontramos regras adequadas para agradar a ele com a vida justa. E, se vivemos de acordo com essas regras, não somos fanáticos, mas verdadeiros filhos do Rei.

Aplicação

O que você pode fazer, na prática, para ser mais justo aos olhos de Deus? Quais são as mudanças que você precisa fazer em seu comportamento e até em sua visão de mundo para ter uma vida mais agradável a Deus? O que isso tem a ver com as pessoas com as quais você se relaciona na igreja, na família e na sociedade em geral?

>> Autor do estudo: Vagner Barbosa
>> Estudo publicado originalmente pela Editora Cultura Cristã, usado com permissão.

 

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